O ANIMAL E O HOMEM
por Carlos Rogério Ames, escrito em 07-10-2009
O animal é movido a instintos, caracterizado por reflexos. É derivado da lei biológica , idênticas nas espécies e invariáveis. O animal, especializado em determinados atos, que os executa com perfeição e habilidade, dá a falsa impressão de que o animal é um ser perfeito, inteligente. Pode se exemplificar, a reação de um cachorro, com algum tempo de convívio com seu dono, quando ele reage a convites, que pela repetição acabam significando algo a ele, e por instinto o cachorro reage. A abelha, por exemplo, ao dançar mostra a seus semelhantes onde achar o pólen. Mas não existe variação de comunicação desse animal, pelo contrário, é estático, inflexível, instintivo. Não permitem inovações, alterações sob pena de tornar-se incompreensível a forma como se comunicam.
Na verdade, o instinto animal é “cego”, ou seja, o animal não tem noção de finalidade de sua ação, de seu ato, movimento ou atividade. Para exemplificar, usamos a hipótese de uma vespa que fabrica uma célula onde deposita o ovo junto ao qual coloca aranhas pra que a larva, no nascimento possa ter alimento. Até aí é o instinto biológico do animal. Se retirarmos as aranhas e mesmo o ovo, ainda assim a vespa continuará trabalhando até fechar a célula, mesmo que essa operação frutifique nula, pois não haverá mais larva para alimentar. É o que se pode denominar de instinto “cego”, característico do animal, pois o principal da atividade não está sendo considerado, que é a finalidade a qual se sujeita qualquer operação.
Está se iniciando com essa dissertação, a diferenciação entre homem e animal. Enquanto o animal age puramente por instinto, o homem age pelo pensamento, com inteligência, pois antes mesmo da execução da tarefa está consciente da finalidade do ato. A execução passa a ser apenas o resultado da escolha do meio necessário para atingir o fim.
A inteligência se distingue do instinto, pela sua flexibilidade. O animal enquanto instintivo, que age por reflexo, limita sua ação a algo repetitivo, planejado, rotineiro. Já a inteligência, pela flexibilidade de que é dotada, permite ajustar-se as mais variadas situações e interferência externas. Molda-se de acordo com a necessidade e conforme a situação exige, ao contrario do inflexível instinto animal.
Como variante, existe o ser animal de uma escala zoológica mais completa, como por exemplo, mamíferos, tipo o chipanzé, cujo reflexo e instinto possui uma plasticidade maior, semelhante a atos inteligentes. Trata-se no entanto, de uma inteligência concreta, decorrente de experiência vivida pelo animal e que tende a repetir-se, com as variações decorrentes de uma certa “iluminação súbita” deste. Porém, o animal, ainda assim, tende a repetir o movimento. A cada nova intervenção, esgota-se seu conhecimento e nada que se compare as transformações possíveis de realização pelo homem, enquanto criador de cultura, que a todo momento passa por inovações e mudanças.
A LINGUAGEM
Ainda no ensejo de diferenciar animal de homem, há que se discorrer sobre a linguagem usada por ambos para se comunicar. O homem obviamente é um ser que fala. É na realidade uma das características básicas que distinguem o homem do animal. É certo que todo animal também tem sua linguagem. Enquanto o ser humano se comunica pela fala, e esse poder de comunicação tem a capacidade de provocar revolução na relação do homem com o mundo, o ser animal usa como linguagem apenas uma referência a reação que se espera dele. O animal, falando em linguagem, não entende o símbolo da comunicação, apenas o índice. Enquanto o índice é apenas uma referência, um indicador, portanto fixo e único a que se refere, o símbolo é universal, versátil e flexível, usual para comunicação verbal, através da qual se comunica o ser humano.
Não há dúvida de que o convite a um cachorro por exemplo, que feito de forma rotineira, resultará em resposta deste. É fruto, possivelmente, de adestramento do animal, do treinamento para que ele reaja exatamente nestas situações. É o indicador (índice) de que o dono espera algo dele e ele reage como forma de comunicar que compreendeu a ordem. Porém, fica apenas nisso. Se houver variante brusca ao convite, o cachorro não mostrará a reação esperada, pois não haverá compreensão. Já o homem, por menor que seja a idade, desde que já tenha compreensão nítida dos fatos, é capaz de compreender a mensagem, mesmo que a forma de transmiti-la seja totalmente adversa.
Neste sentido, podemos conceituar que a linguagem do homem é simbólica, portanto, abstrata, capaz de nos situar no tempo, lembrando o passado e antecipando o futuro pelo pensamento, enquanto que o animal, cuja comunicação é apenas um indicador, então ela é concreta, pois vive apenas no presente, reagindo a fato específico e impossibilitado de antever um novo momento, insuficiente para ajudá-lo a reagir de modo adverso.
Aí está uma razão pujante para que o homem não perca a oportunidade de enriquecer e desenvolver a linguagem, sob pena de tornar-se incapaz de compreender e agir sobre o mundo que o cerca, especialmente no tocante as aceleradas mudanças e inovações tecnológicas que cotidianamente nos desafiam.
O TRABALHO
Para concluir a distinção entre o ser humano e animal, temos o trabalho do homem, que produz o mundo e a si mesmo, enquanto que a produção do animal, limita-se a conservar, agindo por instinto, ou no máximo, buscam a defesa, procura por alimentos ou abrigo. Não é crível admitir que a ação do animal, que mesmo quando cria um resultado material visível seja trabalho, pois sua ação não é intencional, é puramente instintiva.
Enquanto isso, o trabalho humano é a ação de produzir algo, com finalidade consciente. O homem, pelo trabalho, reproduz experiências e é dotado de capacidade intelectual capaz de novas idéias, transformando a natureza em novos bens, com novas experiências, propriamente dito, o que ao animal é inaplicável.
Ao passo que o animal apenas repete gestos comuns a cada espécie, com os mesmos resultados sempre, o trabalho do homem é adaptável as suas necessidades, que são flexíveis, mutáveis. Assim é sua ação sobre a natureza e o mundo, capaz de mutações a todo momento. Da mesma forma, o ser humano é capaz de mudar sua maneira de perceber, pensar e sentir, diferente do ser animal.
Ao homem, é possível atribuir condições de novas relações, de novos sentimentos, desejos diferentes, emoções diferenciadas, prazer, medo, inveja, em maior ou menor escala, enfim, sentimentos que somente são plausíveis no ser humano. É esse poder do homem, que é capaz de melhorá-lo como ser humano como também, de forma negativa, destruí-lo, enquanto ser social, livre e de vivencia comunitária e coletiva.
CULTURA E HUMANIZAÇÃO
Ao homem é atribuída a capacidade de produzir a própria história. Este conceito filosófico atinge maior grau de importância, se compreendermos que a transformação da natureza pelo homem torna possível novos fenômenos culturais, ou seja, culturas diferentes.
O significado de cultura é muito abrangente. Cultura da terra, cultura do homem letrado, culturas regionais, sazonais, enfim, cultura pode ser entendido como tudo o que o homem produz ao construir sua existência. Suas práticas, suas teorias, as instituições, seus valores materiais ou espirituais.
Tendo compreendido que a linguagem do homem é pelo símbolo, pelo que significa, então podemos entender que cultura é a reunião, o conjunto de símbolos de um povo, em determinado momento, em determinado lugar. Devido a variação infinita de simbolizar, as culturas dos povos são na mesma proporção infinitas e variadas.
COMUNIDADE
A vida autêntica do ser humano só pode ocorrer na sociedade e à partir dela. É verdade que existe uma contradição nessa tese, pois ao sujeitar-se a viver coletivamente, criando um processo de alienação, em que o homem, de certa forma, não age como deseja mas como a sociedade preconiza, o ser deixa de ter sua individualidade que o distingue dos demais. Porém, o processo de humanização se faz pelas relações entre os homens, e é dos impasses e confrontos dessas relações que a consciência emerge.
É certo que o homem não será completo se sua ação não for coletiva. Nem mesmo alguém que se afasta do convívio social, normalmente conhecido como ermitão, está absolutamente sem comunicação, pois o simples fato de negar-se a se comunicar ele estará simbolizando algo, portanto, estará de certa forma se comunicando, pois enviará sua mensagem coma brusca atitude.
É das diferenças entre o comportamento ditado pela sociedade como o correto, que os homens organizam as relações entre sí, estabelecem regras de conduta, de valores que norteiam a construção da vivencia coletiva, social, política e econômica.
Por exemplo, o homem não se veste, ou deixa de se vestir, por vontade própria. É uma alienação, pois segue a tendência da comunidade, da cultura a qual está inserido. Assim também ele não come, ou o que é pior, não pensa como gostaria de pensar, mas o faz de acordo com a vida social que ele mesmo ajudou a construir.
Está aí o paradoxo entre o coletivo e o individuo. É fato que o sistema de controle da sociedade aprisiona o individuo, que aparentemente não tem alternativa senão submeter-se a este conjunto de valores impostos pelo grupo social.
TRABALHO E ALIENAÇÃO:
TRABALHO
Historicamente, a concepção de trabalho esta vinculada a visão de sofrimento, de ausência de lazer. Exemplifica esse histórico, o fato de que já na Biblia, Adão e Eva foram castigados e condenados, devido ao pecado cometido, a trabalhar com o suor do seu rosto. Desde Eva, que se proclama que parir, seja trabalho, algo penoso, dolorido. Na Itália, o vocábulo trabalho tem origem em aparelho de tortura para condenados e mesmo animais. Daí, a associação de trabalho com sofrimento.
Em época mais remota, na antiga Grécia, o trabalho manual era destinado a Escravos, enquanto ao homem, era destinado atividade teórica, mais digna portanto.
A interpretação filosófica para o trabalho, além de distinguir o homem do ser animal, entende que o trabalho só se concretiza como atividade coletiva. Pelo trabalho, o homem se auto-produz, desenvolve habilidades e imaginação. Aprende a conhecer e desafiar as forças da natureza; conhece sua força e suas limitações. É pelo trabalho, preconiza a filosofia, que o homem se relaciona com os companheiros e vive os afetos dessa relação, impõe-se uma disciplina.
O trabalho desde sua concepção, passou por fases importantes; por transformações sociais e econômicas que se refletem até hoje no mais contemporâneo dos tempos, fruto do próprio desenvolvimento da humanidade.
A passagem do feudalismo ao capitalismo é uma dessas fases. O nascimento e aperfeiçoamento da industrialização fez com que os trabalhadores, antes puramente braçais passassem a obedecer uma nova ordem, obrigados a vender sua força de trabalho por salário, diferente do que eram acostumados, pois a partir dali o fruto do trabalho não mais lhes pertencia, com a produção sendo vendida pelo empresário que fica com os lucros do negócio.
O avanço gradual da mecanização fez com que os comportamentos abusivos resplandecessem, ocultado pela exploração dos operários que não raro trabalhavam em condições desumanas, o que fez surgir os movimentos socialistas e anarquistas para denunciar, na tentativa de alteração da situação.
ALIENAÇÃO
Paralelo ao trabalho, surge o fenômeno da Alienação, um antagonismo da liberdade do ser humano. Juridicamente alienação é entendido como a perda do usufruto, posse ou poder sobre determinado bem ou direito, decorrente de venda ou hipoteca. Alienar é tornar alheio, transferir para outrem o que é(era) seu.
O fenômeno de alienação é mais profundo, podendo ser observado no próprio ser humano como pessoa. Um alienado mental, é entendido como um louco; o alienado religioso é um fanático, que se submete a idolatria. No cotidiano conhecemos pessoas “alienadas” e as reconhecemos como aqueles que estão desinteressados de assuntos importantes. O povo culto e ciente da importância da democracia, julgam os filósofos, jamais devem outorgar sua soberania a um representante, devem mantê-la em seu poder, em seu domínio e exercício. É o ideal da vida democrática.
No tocante ao trabalho, o surgimento do capitalismo intensificou o processo de alienação, á partir do momento que sequer o operário tinha domínio sobre seu trabalho, pois estava refém de comando, retirando-lhe a posse do produto que passa ao empresário, ao industrial, devendo o trabalhador satisfazer-se com o que este lhe paga, submetendo-se não só ao valor da remuneração, quanto ao horário, ritmo e forma de trabalho determinado por quem o remunera. É um protótipo de alienação pelo trabalho.
Henri Ford, Fayol e Taylor, conhecidos na ciência da administração como precursores da racionalização da produção, este último conhecido como o Pai da Administração Científica, ao mesmo tempo em que contribuíram para o avanço dessa ciência, cooperaram, sob certo aspecto, para expandir o fenômeno de alienação no trabalho. Taylor, por exemplo, preconizou a economia do tempo com a supressão de gestos e movimentos desnecessários, ditando um comportamento corporal a ser adotado pelo operário, durante o processo produtivo, que pode ser entendido como o ápice do domínio do homem sobre o homem na relação capital x trabalho, tal a submissão que avassala o sujeito. (técnica social de dominação) Fenômeno de alienação sem precedentes.
O fenômeno da alienação ultrapassa o processo de produção, em que o mundo competitivo exige ultrapassar a fronteira da razoabilidade, desconsiderando o valor da humanização, sobrepondo a razão técnica à vital, e chega a outra esfera, não menos sujeito e interferências externas
A ALIENAÇÃO NO CONSUMO: O ser humano por excelência é um ser consumista, seja para que o homem mantenha-se subsistido de suas necessidades vitais, básicas, orgânicas, seja para aquelas julgadas pelo homem como necessárias para a dignidade, crescimento humano em suas múltiplas facetas.
O ato de consumir é motivado pela sensibilidade, imaginação, inteligência e liberdade. Divide-se então, a alienação no consumo entre Consumo Alienado e não alienado. Este, supõe-se, que o indivíduo tenha o domínio sobre sua escolha autônoma, sem interferência externa, não só para escolher pela sua preferência mas pelo próprio fato de querer ou não consumir. Um consumo consciente, portanto.
Numa outra dimensão estão o Consumo Alienado. A estimulação artificial das necessidades provoca aberrações do consumo. O que a estratégia mercantilista faz parecer como algo absolutamente indispensável para o prazer ou bem estar do homem, pode na verdade ser algo totalmente obsoleto ou descartável, dependendo do ponto de vista. Longe de ser algo imprescindível para a subsistência do ser humano.
O consumo alienado então torna-se um poço sem fundo, os desejos do ser humano jamais se darão por satisfeito. O consumo alienado, por isso, não é um meio, é um fim em sí. É essa ânsia consumista que deteriora a relação do homem com a racionalidade, pois movida por influência externa, acaba-se gastando mais do que tem, estimulado pelo consumo de supérfulos.
A questão assume tamanha complexidade que sequer há lugar para a filosofia, que por excelência, se conduz pelo condão da contestação, que pela dimensão da coisa já se antevê seria infrutífera.
ALIENAÇÃO NO LAZER
Desde a concepção do mundo, diz a Biblia, que Deus fez o mundo, reservando um dia para o descanso. Em Era menos remota, temos o lazer como criação da civilização industrial, fenômeno de massa, antes privilégio de nobres, burgueses, e que contemporaneamente também pertence ao “homem comum”.
O lazer é sobretudo o tempo que sobra após a realização das tarefas obrigatórias. Assim, em tese, temos o lazer como a entrega do indivíduo a ocupações de livre vontade, seja para diversão, recreação, vida social ou mesmo descanso. Fica deliberado portanto, que o lazer pressupõe que seja ativo, ou seja, não a pura passividade deixando apenas passar o tempo livre.
O lazer, seguindo a tendência do consumo, também merece ser observado como fenômeno de alienação. Uma bem montada ‘indústria do lazer’, orienta a escolha, manipula o gosto, determina o programa, que passa a ser aceito como natural pelo ser humano. Portanto está concebido o processo de alienação no lazer.
Pior a situação para uma camada de menos robustos financeiramente, em aglomerados urbanos, que sequer contam com infra-estrutura adequada para esses momentos. Isso reduz a possibilidade dessa camada social em usufruir de lazer não alienado, pois está sujeito aquilo que está disponível, destarte, alienado.
O lazer ativo, por sua vez, se caracteriza pela participação integral do homem, com condições de escolha e de crítica. Tal não ocorre com o passivo. Nesse, o homem sujeita-se a reforçar os comportamentos mecanizados, ampliando o fenômeno de alienação.





