DECEPÇÃO NA GRANJA DOS BICHOS¹
Carlos Rogério Ames
ESCRITO EM 14-06-2011
RESUMO: o artigo é um resumo crítico da obra de George Orwell, a Revolução dos Bichos, que conta a história dos animais de uma granja, que lutavam por libertar-se dos seus donos – seres humanos que abominavam, porque se julgavam escravizados pelo regime sobre o qual viviam, e liderados por porcos, venceram a batalha e implantaram o quimérico ‘Animalismo’ na nova Granja dos Bichos, em alusão ao Comunismo. O descumprimento por parte de um grupo de animais do pacto celebrado entre todos os seres da espécie, mostra o quanto pode ser caro a conquista da liberdade, e faz um paralelo entre a vida na utópica granja e a sociedade dos homens.
PALAVRAS CHAVE: sociedade, ditadura, animalismo, comunismo, totalitarismo, revolução.
INTRODUÇÃO
A luta contra o totalitarismo, a busca da liberdade, a ganancia do poder e o uso desse para dominar a sociedade, o relacionamento entre os seres em sociedade e suas lutas; surge, nesse contexto, a obra A Revolução dos Bichos, em plena segunda guerra mundial, escrito por George Orwell, um Indiano, que desde a juventude sofreu a pressão da classe trabalhadora e o inspirou a contestar, em uma ficção, a ditadura imposta pelo Stalinismo, modelo soviético adotado na Rússia de então. A fábula de Orwell, analogamente, retrata esse modelo, como ‘animalismo’, pois a obra conta a revolução de animais por conta da exploração e dos maus tratos sofridos por estes pelo seu dono.
A estória se passa na Granja do Solar, cujo dono explorava os animais e relegava-os a tratamento indigno, o que causou profunda revolta, liderados pelo porco mais idoso da granja – Major, que pregava a liberdade aos bichos, saindo do domínio totalitário de seu dono, para viver uma vida livre, em que cada um trabalhasse para sí próprio, deixando de servir como escravos a seus donos. A morte do porco Major, elevou a líderes do movimento revolucionário, outros dois seres da mesma espécie – Bola de Neve e Napoleão, pondo em prática o “Animalismo”, uma ironia ao totalitarismo político soviético, fazendo uma analogia ao Comunismo.
A REVOLUÇÃO
Começava uma nova vida para aqueles animais, agora na Granja do Bichos, após a expulsão do local, do dono e sua família, exterminando com os humanos e dominando a área pelos Bichos que passaram a ser, eles, os donos da Granja, criando suas próprias leis, em comum acordo, e passando a trabalhar em comunidade, dividindo-se os frutos do lavor. De pronto, surgiu a necessidade de elaboração dos princípios básicos do novo modelo, em 7 mandamentos capitais, regras para manter a ordem e disciplina naquela utópica sociedade. Estava implantado o “Animalismo” na Granja dos Bichos.
O início foi exitoso. Todos comemoravam a vitória da revolução, a oportunidade de discutir em grupo os assuntos que lhes interessavam, o acolhimento a sugestões, enfim, era a celebração da liberdade, tudo com que sonhava havia tanto tempo e que agora era a realidade. Os problemas porém, começam quando Napoleão, uma das lideranças da nova sociedade, traiu um de seus companheiros de liderança e principal desafeto no movimento, (Bola de Neve) expulsando-o da granja, utilizando-se de seus cães fieis, que foram criados em absoluto segredo. Já nessa parte, temos a comparação como o Ser Humano, aonde o desrespeito a regra e a ânsia pelo poder são inerentes a conduta dos homens. Foi a partir desse acontecimento, que a politica na Granja dos Bichos deu a primeira reviravolta, decisiva para demonstrar que a sociedade muda, as regras mudam, mas o homem é um ser egoísta por natureza e que o fascínio por dominar a sociedade é inerente a essa condição.
A TRAIÇÃO DO LÍDER
A radical mudança fez com que os animais da granja fossem proibidos de dar opiniões e impensável fazer protestos, pois coagidos pelos ferozes e fiéis cães adestrados por Napoleão, o porco autoritário que emergiu do sistema implantado na utópica sociedade. O domínio passou a ser tão somente exercido pelos porcos, que formaram um grupo separado dos demais, sob a tutela de porco líder (Napoleão); aos demais, cabia seguir as ordens daquele grupo e executar as tarefas. Os porcos, aliás, eram tidos como os mais inteligentes daquela sociedade, (os únicos que sabiam ler e escrever), e por isso mereciam certas regalias não compatíveis com a natureza dos demais bichos. Mesmo desconfiados de que algo não ía bem, os demais bichos eram levados a acreditar que para manter esse modelo de independência era necessário que alguns de sua espécie, tivessem um tratamento diferenciado. Discursos inflados, retóricos e com exemplar oratória, eram suficientes para esse convencimento.
Mas embora, ainda que sob desconfiança, o conformismo se manifestava, aos poucos a escravidão vai ressurgindo, com a diferença de que, agora o lavor dos bichos era para os porcos e não para os humanos. A desigualdade social na imaginaria granja estava latente, onde porcos e cachorros formavam uma nova burguesia e as demais espécies seus servos.
O AUTORITARISMO
A prepotência de Napoleão, ancorado em alguns fiéis seguidores, não tinha limites. Arrogante por natureza, passou a desrespeitar até mesmo os princípios básicos daquela sociedade, mandamentos que era caros aos membros daquela sociedade, mas que passar a ser ignorados, especialmente por líder maior, infringindo as “severas” regras, como: a proibição ao consumo de álcool, relacionamento comercial com humanos, e o que é pior, começou a caminhar sob duas patas, o que o assemelhava aos nefastos seres humanos, tão abominados pelos Bichos e que os motivou a enfrenta-los na guerra travada em busca da liberdade. Os sete mandamentos básicos davam lugar assim, a um só, que se impunha a todas as outras regras: “todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros”. Qualquer semelhança com os tempos contemporâneos, seja qual for o regime, não é mera coincidência, não somente pela facilidade com que o cidadão é ludibriado pela retórica pois a regra de igualdade, isonomia e equidade, é algo tão ou mais abstrato quanto irreal e utópico, porquanto tenha a infausta luta pelo poder e pelo domínio entre classes e grupos.
A DECEPÇÃO
Gradualmente os demais bichos chegaram a conclusão de que, o que era para ser a redenção, agora se tornara a mais absoluta ditadura, forçando-os a trabalhar mais e em piores condições do que antes, com a única diferença de que não são mais subservientes aos homens mas agora, a seres da mesma espécie. Nesse contexto, o autor, na figura fictícia dos bichos, e o regime implantado por estes, condena e protesta principalmente contra o totalitarismo, mas mostra também, que mesmo o Comunismo implantado na Inglaterra era opressor da mesma forma, fazendo dos trabalhadores, uma massa ingênua e oprimida.
Diante da nova situação a que estavam expostos, os antes eufóricos bichos, paulatinamente foram deduzindo que estavam sendo subservientes, massa de manobra, meros servos dos “donos do poder”. Porém, mesmo tendo entendido o óbvio, ainda assim, o receio de que o malvado homem pudesse voltar ao domínio da situação, era um argumento infalível que motivava a todos para suportar o fardo da responsabilidade pelo bem geral de todos. A crítica implícita de que, nada pode ser pior para mudar a mentalidade das pessoas, do que o conformismo e o temor de enfrentar a realidade, por mais injusta que pareça a situação.
UM PARALELO COM A SOCIEDADE DOS HOMENS
Assim, temos um retrato da história da humanidade, narrada em uma fábula, mas que guarda irrefutáveis semelhanças, não só com a revogada era do totalitarismo Russo, mas que se faz presente na contemporaneidade, em que regras são editadas por pessoas e por estas podem ser alteradas; o que se condena, é a mutação da norma em beneficio de poucos, despreocupado com o bem geral da sociedade. Essa constatação é hodierna e reprisa a mesma circunstancia fática que compreende a história.
O cidadão por certo tem direitos e deveres, afinal, vivemos no coletivo e, é da essência da sociedade, a obediência a regras que reprimam àqueles que, pelo conceito errôneo de vida em comunidade, ultrapassam a fronteira entre o seu direito e o do seu semelhante. Essa mesma sociedade que nos abriga, pode até mudar de modelo, de politica social, de modo de vida, mas o ser humano é inerte, esse não modifica tão facilmente seu comportamento, a não ser sob extrema coação, e, quanto maior o poder que lhe conferirmos, maior será a tendência de que ocorra o excesso, o infando uso e abuso do poder que lhe é confiado.





